E agora, Grécia? E agora, nós?

FullSizeRenderEntre a desilusão e o festejo vai um caminho enorme. Deste lado pesa a desilusão, claro. Mas nada é a preto e branco, como sempre. A pergunta que mais ouvi hoje foi: podes explicar a posição do Syriza? Nada mais sintomático. Estamos mesmo num processo de luta de classes e não estamos a ganhar. Se estivéssemos, os olhares seriam noutra direcção. Seriam: podes explicar a posição das instituições europeias? Mas não foi essa a pergunta e há várias razões para isso. Estando o acordo alcançado na esfera do indefensável, vamos por partes.

Durante a reunião de ontem do Eurogrupo, e mesmo depois, durante a Cimeira, o governo grego enfrentou ameaças e chantagens que teriam sérias consequências para o povo grego, antevendo um plano concreto de isolamento completo do país a concretizar-se já na quarta-feira, e a vários níveis, incluindo o colapso dos bancos e a falta de provisões de todo o tipo.

A forma como um “Grexit” foi sendo apresentado significaria deixar a zona euro, mas, para além disso, ter de aplicar uma austeridade muito mais dura. Para sobreviver e não ceder às pressões que queriam evitar o famoso “left parenthesis”, o governo grego lutou como nunca vimos nenhum outro lutar. O resultado foi um compromisso penoso. As ‘vitórias’ desta negociação foram: incluir no acordo a renegociação da dívida; bloquear a proposta de criação de um fundo gerido pela Alemanha e sediado no Luxemburgo (num banco ligado a Schäuble) com todos os seus possíveis activos até 50 mil milhões de euros, que se converteu num fundo sediado na Grécia, administrado pelo governo grego e supervisionado pela Comissão Europeia, que usará 25 mil milhões de euros para a recapitalização dos bancos e o restante para financiar a dívida e em investimentos directos para financiar o desenvolvimento; e garantir que a legislação já posta em prática pelo governo grego não seria bloqueada, significando que todas as leis relacionadas as pessoas contratadas retroactivamente no sector público serão mantidas (por exemplo, as mulheres da limpeza, a ERT – emissora pública de rádio e televisão, ou a lei que regulamenta a possibilidade de pagar as dívidas ao Estado ou aos fundos de segurança social em 100 prestações) e que tudo o que vier a ser legislado nestas matérias estará sob o controle do governo grego.

Uma gota num oceano. As derrotas são muito maiores, é o que é. Mas fica uma imensa luta num território minado pela chantagem, ultimato e vingança. Sim, é de vingança que estamos a falar. Na Europa do directório querem fazer crer que não há espaço para tentativas de desobediência.

A grande vantagem e, ao mesmo tempo, a grande fragilidade deste processo é que, finalmente, os povos e a opinião pública da Europa puderam ver claramente e perceber o comportamento político das suas lideranças. Talvez se possa esperar que se mobilizem e actuem em conformidade.

Na maratona nocturna de ontem, jogava-se a sobrevivência do Euro e projecto europeu. Hoje houve muitos a celebrar a salvação da Zona Euro e da Grécia. Houve mesmo quem falasse dos ideais da união e da solidariedade e celebrasse um novo pacote de “ajuda à Grécia”.

A realidade é que, nesta cimeira, atravessaram-se várias das fronteiras que tinham sido declaradas como intransponíveis. Desde logo, a irreversibilidade do Euro e, com ela, a da democracia. A União Europeia, que nunca foi democrática, prezava uma União de Estados democráticos. Ambas estão associadas. Na Europa alemã da Sra. Merkel, a porta da rua é serventia de quem não obedece.

O acordo que ontem foi imposto, sob ameaça de expulsão, traz de volta a austeridade e sequestra activos fundamentais do Estado grego. Curiosamente, nessas condições, traz também a discussão da reestruturação da dívida grega, que Schäuble tinha garantido ser contra os Tratados.

Os termos deste acordo são relevantes para determinar o que será o futuro da Grécia e do primeiro governo grego que se atreveu a lutar para defender o seu país, mas temo bem que, para a Europa, seja tarde demais. Não sabemos o que se vai passar na Grécia. Não sabemos, aliás, qual será a resposta do povo grego. A imposição de uma humilhação nacional, contra a vontade inequívoca e esmagadora de um povo e seguida de mais três anos de massacre, não poderá ter bom resultado.

E quais serão as respostas? Só poderão ser emancipatórias, senão não serão respostas. Mas terão certamente de ser construídas contra esta pseudo-União, na Grécia e onde quer que os cidadãos se fartem dos maus-tratos de uma elite de rufias e mafiosos. Agradeçam à Sra. Merkel: ontem à noite, começou a morrer a Zona Euro. Paz à sua alma.

A esta Europa, acima de tudo, interessa a destruição da soberania nacional. Hoje foi um mau dia para a Europa e para a democracia europeia. Mas deixemo-nos de confortos. Não tivesse sido esta luta tão isolada e talvez o resultado fosse diferente. Hoje, não apenas nós, toda a gente conhece as fronteiras da chantagem. Nessa cartografia o espaço da política depende de nós mais do que nunca. Os poderosos e os seus colaboradores não querem democracia. Temos a obrigação de fazer muito mais. Sabemos hoje, como sabíamos ontem e ignorámos, que a derrota do capitalismo global precisa de mais do que um governo e um primeiro-ministro.

Sei que hoje não é dia de dizer isto, mas há um lado humano na política e, não podendo defender de forma alguma o acordo alcançado, é-me difícil ficar ao lado do Syriza só para a fotografia. Também é preciso estar, mesmo que de forma crítica, quando os resultados não são os que queríamos.

A luta continua.