Das lamas vermelhas da Hungria à Ribeira da Patanha

Cinco anos depois da tragédia que atingiu Kolantár e Devecser, na Hungria, o Parlamento Europeu debateu as “Lições extraídas da catástrofe das lamas vermelhas”. Marisa Matias recordou a barreira do silêncio do governo húngaro e das instituições europeias sobre a tragédia. “Se soubemos, em primeira mão, o que aconteceu foi pelas famílias das vítimas que trouxemos aqui ao Parlamento apenas um ano depois” – afirmou.

Cinco anos depois ainda não se conhece o verdadeiro impacto deste acidente industrial, e por isso a deputada do Bloco de Esquerda avisou: “não venham dizer que está tudo bem porque eu gostava de saber exatamente quais são as normas aplicadas a esta empresa atualmente.”

“Não venham dizer que o princípio do poluidor/pagador está a funcionar e que muitas coisas foram feitas, porque, sinceramente, não é preciso ir muito longe” – continuou Marisa Matias – “posso convidá-los para irem ao meu país, a Portugal, a uma pequena localidade, à Ribeira da Patanha, ver como uma multinacional contamina todos os dias uma comunidade que não tem como sobreviver para além dessa contaminação. Portanto não, não está tudo bem”.

Na Hungria , como em Portugal, além da ineficácia do princípio do poluidor/pagador, ainda há um longo caminho a fazer em matéria de prevenção, mas falta sobretudo capacidade de resposta quando ocorrem as tragédias, e por isso Marisa Matias lembrou que há uma obrigação de agir “e agir é também ter um Serviço Europeu de Proteção Civil que consiga agir nas alturas que as catástrofes acontecem”.

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Foto de Paulete Matos

A 4 de Outubro de 2010 ocorria o que foi descrito como sendo o mais grave acidente químico na história da Hungria: uma enxurrada de lama vermelha e tóxica, derramada de um reservatório de alumínio e que, em algumas zonas, atingiu os dois metros de altura. O depósito de lama vermelha da fábrica  Ajkai Timfoldgya rebentou devido às fortes chuvadas e originou uma torrente que além de ter provocado a perda de vidas humanas contaminou terrenos agrícolas e provocou sérios danos ambientais e pôs em causa importantes recursos hídricos utilizados para abastecimento das populações de numerosas cidades, designadamente Budapeste. Em causa ficou todo o ecossistema do Danúbio, o segundo maior rio da Europa, no seu percurso até ao Mar Negro.

A situação foi-nos descrita, na altura, na primeira pessoa por Kinga Kalocsai através do seu relato ao vivo sobre o inferno da lama vermelha e alguns dias depois na visita à “cidade proibida” de Devecser.

Marisa Matias por diversas vezes questionou as instituições europeias, quer através de perguntas escritas quer no plenário, e acusou-os de apenas serem eficazes na “gestão do silêncio”. Perante a falta de respostas decidiu ir ao terreno investigar  a situação, contactar as vítimas e obter as respostas que lhe faltavam. Um ano após a tragédia, apresentava no Parlamento Europeu, juntamente com Paulete Matos, o livro “Mesmo ao lado do inferno”, e trouxe ao Parlamento Europeu algumas das vítimas que assim puderam ter voz.

 

Algumas imagens da tragédia das Lamas Vermelhas:

Hungria: As consequências do derrame tóxico em Kolontar

Hungria: 1 ano depois ainda enfrentam a “lama vermelha”