Refugiados

FullSizeRenderAs notícias sobre refugiados não são de hoje, a crise dos refugiados também não. Mas hoje e amanhã, e depois de amanhã, nas semanas e nos meses que passaram somos levados pela secura atroz do que vamos lendo e vendo.

Um dia afunda-se um barco no Mediterrâneo, morrem 400 pessoas. Noutro dia morrem 700. Um dia outro soltam-se as imagens de mulheres, crianças, homens a enfrentar muros de segurança, a tentar saltar muros reais, a furar cercas de arame farpado. Num outro dia qualquer são as bastonadas, as pessoas encontradas mortas em contentores, os que jogam a sorte agarrados a camiões de transporte de mercadorias. A dureza e secura das imagens e das histórias que se acumulam é atenuada pelo anonimato, pela ausência de nomes, de histórias de vida, de trajectórias. É gente que deixou de ser vista como gente e que aparece como ilustração nos discursos xenófobos dos altos responsáveis por essa Europa fora que tão preocupados estão em garantir a “segurança” dos seus. O que é claramente uma luta pela vida é tratado como ameaça colectiva. É preciso ter medo, alimentar o medo, descaracterizar as vidas que estão em jogo porque dizem que esta gente é bem capaz de nos invadir e de pôr em causa os “valores europeus”. Tamanha contradição. Tamanho cinismo. Continuar a ler

E agora, Grécia? E agora, nós?

FullSizeRenderEntre a desilusão e o festejo vai um caminho enorme. Deste lado pesa a desilusão, claro. Mas nada é a preto e branco, como sempre. A pergunta que mais ouvi hoje foi: podes explicar a posição do Syriza? Nada mais sintomático. Estamos mesmo num processo de luta de classes e não estamos a ganhar. Se estivéssemos, os olhares seriam noutra direcção. Seriam: podes explicar a posição das instituições europeias? Mas não foi essa a pergunta e há várias razões para isso. Estando o acordo alcançado na esfera do indefensável, vamos por partes.

Durante a reunião de ontem do Eurogrupo, e mesmo depois, durante a Cimeira, o governo grego enfrentou ameaças e chantagens que teriam sérias consequências para o povo grego, antevendo um plano concreto de isolamento completo do país a concretizar-se já na quarta-feira, e a vários níveis, incluindo o colapso dos bancos e a falta de provisões de todo o tipo. Continuar a ler

Sobre o “acordo” grego: e as razões pelas quais não corri a tirar o tapete ao Syriza

FullSizeRenderMuito se disse sobre o suposto “acordo” grego. A reunião de hoje do Eurogrupo trouxe a lume muitos dados absolutamente imprescindíveis para perceber este mosaico. Desde a suposta recusa alemã em reestruturar a dívida, passando pelo “medo” filandês de ver cair o seu governo, até à proposta inenarrável de deixar os gregos aplicarem o programa durante uma semana e depois logo se via… Enfim, uma coisa ficou evidente: o plano do Grexit esteve sempre dentro do Eurogrupo e não foi pela mão da Grécia.

Vamos, então, ao programa proposto ontem pelo governo grego e às razões pelas quais eu não corri a tirar o tapete ao Syriza. Há ou não há diferenças entre a proposta de Juncker e a proposta apresentada pelo governo grego? Há e não são pequenas. Ambas contêm austeridade, isso é claro, mas não é novo. Agora, fazer desta nova proposta um episódio de capitulação é, no mínimo, pouco sério.  Continuar a ler

Um ano passou

FullSizeRenderCumpre-se agora um ano sobre a eleição para o Parlamento Europeu. Um novo mandato que teve início formal no dia 2 de Julho de 2014. Um ano que parecem dez, para ser muito honesta, mas a desculpa perfeita para prestar contas do que foi feito, reflectir sobre o que mudou na Europa, do que está pela frente.

Neste mandato, as responsabilidades institucionais da delegação do Bloco de Esquerda aumentaram muito face ao mandato anterior. Para além de responder aos compromissos do programa eleitoral, houve tarefas específicas que assumi logo desde o início: a coordenação da Comissão de Assuntos Económicos e Monetários e a presidência da Delegação para as relações com os países do Maxereque (Egipto, Jordânia, Líbano e Síria). Escusado será dizer que em ambas as áreas de trabalho os desenvolvimentos foram mais do que muitos e, diga-se em abono da verdade, num sentido oposto ao trabalho que temos feito.

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