A austeridade não paga dívidas

“A austeridade não pagou um cêntimo de dívida nem na Grécia, nem em Portugal, nem em nenhum país. E essa é que é a verdadeira questão. Se queremos trazer seriedade para o debate temos que trazer factos e não só uma obsessão ideológica em torno da austeridade. E de facto, o que se passou nas últimas semanas e na última cimeira foi muito sério e grave. Atravessaram-se várias das fronteiras que tinham sido declaradas intransponíveis a nível da União Europeia. Desde logo a da irreversibilidade do Euro, mas também a da democracia e a da solidariedade. Eu acho que se pode riscar a palavra solidariedade dos tratados. E, não, não se manteve a integridade da Zona Euro, pelo contrário, essa questão foi trazida para debate. E foi trazida para debate pelo Sr. Schäuble, não foi pelo governo grego.” – Marisa Matias  – ECON: debate sobre o acordo da Cimeira Euro relativo à Grécia – 16/07/2015

E agora, Grécia? E agora, nós?

FullSizeRenderEntre a desilusão e o festejo vai um caminho enorme. Deste lado pesa a desilusão, claro. Mas nada é a preto e branco, como sempre. A pergunta que mais ouvi hoje foi: podes explicar a posição do Syriza? Nada mais sintomático. Estamos mesmo num processo de luta de classes e não estamos a ganhar. Se estivéssemos, os olhares seriam noutra direcção. Seriam: podes explicar a posição das instituições europeias? Mas não foi essa a pergunta e há várias razões para isso. Estando o acordo alcançado na esfera do indefensável, vamos por partes.

Durante a reunião de ontem do Eurogrupo, e mesmo depois, durante a Cimeira, o governo grego enfrentou ameaças e chantagens que teriam sérias consequências para o povo grego, antevendo um plano concreto de isolamento completo do país a concretizar-se já na quarta-feira, e a vários níveis, incluindo o colapso dos bancos e a falta de provisões de todo o tipo. Continuar a ler

Sobre o “acordo” grego: e as razões pelas quais não corri a tirar o tapete ao Syriza

FullSizeRenderMuito se disse sobre o suposto “acordo” grego. A reunião de hoje do Eurogrupo trouxe a lume muitos dados absolutamente imprescindíveis para perceber este mosaico. Desde a suposta recusa alemã em reestruturar a dívida, passando pelo “medo” filandês de ver cair o seu governo, até à proposta inenarrável de deixar os gregos aplicarem o programa durante uma semana e depois logo se via… Enfim, uma coisa ficou evidente: o plano do Grexit esteve sempre dentro do Eurogrupo e não foi pela mão da Grécia.

Vamos, então, ao programa proposto ontem pelo governo grego e às razões pelas quais eu não corri a tirar o tapete ao Syriza. Há ou não há diferenças entre a proposta de Juncker e a proposta apresentada pelo governo grego? Há e não são pequenas. Ambas contêm austeridade, isso é claro, mas não é novo. Agora, fazer desta nova proposta um episódio de capitulação é, no mínimo, pouco sério.  Continuar a ler